A primeira coisa que eu quis ser na vida foi desenhista. Sempre serei um desenhista frustrado. No bom sentido, please. Por isso não consigo ver os quadrinhos como "arte menor", ou "sub-cultura" ou "cultura inútil". A Jane Maciel (minha generosa amiga linkada aí do lado) me emprestou Que Saudade, Snoopy!, coletânea de tirinhas do Charlie Brown (Peanuts) que a Conrad editou. Depois que recebi, fui pra casa com a empolgação que sinto ao ler Dante ou Torquato Neto. Minha sensibilidade deve muito à cultura de massa.
Numa das tirinhas do livro o Snoopy está batucando sua máquina de escrever. Pra quem não sabe, além de cão ele também é escritor. Se bem que são duas coisas indissociáveis. Fiquem com um fragmento do sujeito, filho do cartunista Charles Schulz:
Sub-cultura é a mãe.
Escrito por quem gritou foi o reuben da cu às 21h44
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COM A PENA DA GALHOFA E A TINTA DA MELANCOLIA (este é um texto sem título)
Aqui as personagens são: O capitão gancho, O professor-doutor em psicopedagopatia inverossímil pela USP, O reuben e O débil mental do VJ vocalista de uma banda de emocore. O professor-doutor etc. já acorda dizendo E se o inferno parecesse um shopping?, despertando então O capitão etc., O reuben e O débil mental etc..
Assim que as vitrines e a música de vidro e os luminosos e os sorrisos rasteiros passam a pintar a paisagem O reuben diz Assim está melhor?. O capitão não gosta nem um pouco. Resmunga algo inaudível que talvez insinue que na condição de personagem O reuben deveria perder essa pose de autor. Ele ele mesmo O capitão pinta então carnes cruas dependuradas detrás das vitrines. Como num açougue chique. Não altera os sorrisos rasteiros ou a música de vidro e as vitrines. O reuben parece não se importar, o que de fato. O professor-doutor acha tudo muito pós-moderno, nada original e muito sujo. Brega mesmo. Cruuuuzes, O professor-doutor diz.
Uma das caixinhas de som do sistema de som do shopping que pode ser tanto o cenário quanto o inferno toca mais alto que as demais. Mais alto demais, alguém da platéia intervém. O débil mental está sentado sob. Embaixo dela, diz a música de vidro. O reuben abate a caixinha de som que toca mais alto que as demais com dois tiros de um rifle e desenha um relógio-despertador que tapa o buraco-aberto. O capitão teme o relógio-despertador. Fobia grave, culpa de um crocodilo freudiano dos tempos do Nunca. O débil mental não consegue escutar música alguma mais. O débil mental é impressionável demais. Ninguém duvida de que as demais caixinhas de som estão funcionando bem.
Há na platéia três estudantes de psicologia apreciadores de música eclética que se levantam aviltados e resmungam algos inaudíveis que talvez insinuem Quantos estereótipos!, Um desrespeito!, O autor perdeu o juízo na primeira tentativa!, arrancando aplausos e silvos de O professor-doutor. A platéia restante aplaude a interpretação de O professor-doutor, embora ignore a dos três estudantes de psicologia aviltados. O capitão não gosta nem um pouco. O capitão diz Vão à merda todos vocês. O débil mental acha tudo muito engraçado, tudo muito cheio de atitude.
O débil mental pede um telefone e pelo telefone pede um McLanche Feliz com bastante queijo, Por favor. Mais aplausos. Silvos breves. O professor-doutor agradece o carinho como se fosse o Sting. Ninguém lembra do Sting. Risos de papel saem das caixinhas de som restantes. O capitão exige que O reuben se explique. Mais risos de papel e aplausos. O capitão gosta menos ainda. Estão todos loucos, O capitão diz. Alguém da platéia diz Alguém aí pediu um McLanche Feliz com bastante queijo?. O débil mental diz Eu e desce até a platéia. Com o boné da McDonalds lá está Julio Cortazar, que O débil mental não conhece. A platéia restante continua observando o palco apenas. Nada acontece no palco enquanto Julio Cortazar mastiga O débil mental dentro do McLanche Feliz com bastante queijo, mais ou menos como naquele conto do livro Final de Jogo. O professor-doutor percebe o que está acontecendo e se finge de morto. O professor-doutor deita no centro do palco. Claro. Uma das mãos de O professor-doutor está dentro da boca de O professor-doutor. O professor-doutor chora, chora mesmo, pra valer. Caladinho. A platéia não entende. Talvez Julio Cortazar entendesse, mas Julio Cortazar já saiu. A platéia sem Julio Cortazar resmunga algos inaudíveis. Juntos, os algos inaudíveis de toda a platéia incomodam pacas. O capitão agradece a quem interessar possa por seu gancho. O capitão sabe que deve isso ao crocodilo freudiano dos tempos do Nunca. O gancho de O capitão está dentro de um dos ouvidos de O capitão. Há sangue. O capitão senta ao lado de O professor-doutor, para sempre.
A platéia agora não importa mais.
Atrás de uma das vitrines O reuben desenha um daqueles dependuradores de carnes cruas só que sem nenhuma carne dependurada. A platéia agora não importa mais e todos os personagens estão mortos menos O reuben. O que será que acontece agora?
Escrito por quem gritou foi o reuben da cu às 10h36
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