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| o trompetista gago: :reuben |
Pedalando uma velha calói eu procuro a Zona Fantasma
Eu estava vestido com minha dor mais elegante quando recebi o cd Rebelião na Zona Fantasma, do poeta Ademir Assunção. Cadeiras quebradas na minha alma. Vasos de flores derramando terra no chão. Porta-retratos lançados contra paredes. Eu, minhas verdades e mentiras e todas as suas conseqüências.
Abro o envelope. Desenho do Paulo Stocker. Humor. & terror. Pego o disco. Mais Stocker. E o aviso: ainda dirão que somos lunáticos. O disco levou quase dez anos para ser feito. Ademir conta que vendeu um carro para bancá-lo. Tudo, como diria o Itamar, às próprias custas. Um grande lunático, esse Ademir. Pousou por aqui e agora uiva de saudade de alguma lua onde as coisas talvez façam sentido. Agora trabalha com um grupo de músicos de primeira, para recriar poemas já publicados e mostrar inéditos.
‘Sou um homem só’, Ademir se apresenta. E o violão solitário de Luiz Waack, como rastros de fumaça no ar da sala. Uma serpente dançando, você não vai conseguir domá-la.
Tive a sensação de que a voz estava alta demais, em relação aos instrumentos, na faixa seguinte, “Escrito a Sangue”. E de que o clima da faixa destoava do poema, que precisava de algo mais heavy. Mas “E então?” vem logo em seguida, e aí tá tudo certo, como diz o Bortolotto. Está todo mundo no mesmo plano, todo mundo provocando. Aparecendo quando preciso, fazendo cama quando preciso. Ao longo do disco, poema oralizado dialoga com música, e também com a forma do poema no papel do encarte (olho vivo, velhinho). A melhor palavra que eu conheço para isso é ORGIA. Não deixe de sacar tudo, e ao mesmo tempo. Se lambuze. Há certas sutilezas de arrepiar a nuca. Saque só “Noite & Dia”. A espacialidade do poema voa no tempo, primeiro da fala, depois da música de Ademir e Madan. E acerta em cheio, no centro de outro homem só, como todo homem.
Eu ainda poderia falar que “O Espinho no Dedo de Deus” me pegou de surpresa, puta beleza (“tenho no corpo as marcas de chernobyl/ tenho no bolso uma bomba que ainda não explodiu”). Ou de “Nada Demais”, que eu há muito tempo trago com carinho na bagagem do coração, e que agora mesmo é que não sai nunca mais da mochila. Poderia falar etcetera e tal. Ou registrar que algumas vezes a entonação da fala de Ademir (me) incomoda. Mas eu realmente estou muito mais interessado em ficar ouvindo o disco.
Ademir Assunção já é aquele sábio cruzando a cidade numa velha calói. Furioso e zen como ninguém. “Quem sabe que sabe não se afoba/ e quem sabe que nada não se afoga”, ele diz, enquanto pedala. Os homens se assustam, mas as crianças acham tudo muito e tão.
O poeta recebe seus convidados, Edvaldo Santana e Zeca Baleiro. Dizer o quê? Contribuições impecáveis. De Madan, Luiz Waak, Ricardo Garcia e quem mais apareceu também. Arte, honey. The wild side. Pessoas sensíveis, enxergando com olhos de anjos. Procurando tocar o outro lado. Você, que está do outro lado. Eu. Se isso não lhe desarmar, se esse tipo de coisa não mexer com sua sensibilidade, é melhor se cuidar, velhinho. Dê uma boa respirada e encare o sol nascendo. Isso vai ajudar.
Ademir Assunção & os meninos rebeldes entram na minha alma e pisam todos os restos no chão. Estilhaçam as sobras. Depois sacodem a poeira dos pés e sentam, calados. Ao meu lado.
Escrito por quem gritou foi o reuben da cu às 19h04
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