Eu que vá cuidar da minha vida, é melhor cuidar da minha própria vida, que aí já seria demais ter também que socorrer bêbado caído das 9 às 5 da manhã, logo eu que já das 9 às 5 da manhã tenho que desviar de quantos desses bêbados caídos, desses farrapos mamados enquanto entrego leite. Por isso agora que são 5 para as 5 da manhã eu passo por cima desse último homem sem dono na calçada, e agora que são 5 da manhã o melhor que eu faço é cuidar da minha vida, por isso eu meto a chave giro a maçaneta e aqui estou, seguro no meu apartamento. Eu que me viro pra comprar apartamento entregando leite há quantos anos, eu é que sei quanto leite ainda entrego antes de me aposentar.
Agora que eu estou seguro é só pra checar que eu dou uma olhada pela janela como toda vez antes de dormir.
Ah merda. Lá está. Ele.
Pensando agora enquanto cuido da minha própria vida, eu não senti cheiro de bebida não. Pensando agora, e se ele estiver morto?
Eu não matei ninguém, eu que me toque e vá cuidar da própria vida.
Ele está lá embaixo e bem embaixo da minha janela. Se estiver morto, está morto bem embaixo da minha janela. Ah merda, a polícia que se toque e o encontre logo, antes que ele comece a feder. Eu que não me meto, que se eu me meto é só pra arranjar encrenca.
Ah merda. Do jeito que essa vizinhança é alguém ainda vai dizer que me viu passar por cima dele e que certamente mesmo ele caiu daqui, Caiu Não, Seu Guarda, Aquele Leiteiro Metido Que Jogou. Ah, O Motivo Eu Não Sei Dizer Não Senhor.
Podem falar o que quiserem, ah merda, contanto que eu não tenha feito nada, como de fato não fiz.
Merda. Eu tenho que sumir com esse corpo, eu tenho que sumir com ele antes que alguém pense que poderia ter sido eu.