Escrito por quem gritou foi o reuben às 15h32
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um esboço
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Foi com Borges que aprendi o significado do Corão para os muçulmanos. “É um dos atributos de Deus, não uma obra de Deus”, ele diz (Borges, não o Corão). Trata-se de algo anterior à criação. Um livro anterior ao homem.
No cristianismo (antes, no judaísmo), o Livro é escrito por cerca de 40 autores oficiais (através de 34 séculos), todos “guiados pelo Espírito”. Só a presença inspiradora do Espírito dá coesão aos retalhos literários da Bíblia (para os judeus, Torah).
O mesmo Borges ensina, a idéia de livro sagrado é oriental. Os exemplos do islamismo e do cristianismo são bem recentes, e os dois mais popularizados no ocidente. Popularizados, apenas. Não creio que o cristianismo (detenho-me nele) tenha sido compreendido. Prova disso é a forma burocrática que assumiu deste lado do mundo. Um exemplo: a noção de igreja. Disseminou-se que igreja são templos apinhados de bocós (e que pastores são intermediários entre o homem e Deus). O conceito bíblico é que cada indivíduo é igreja (e que, com o Sacrifício, finda está a necessidade de intermediários).
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Daniel Pellizzari: “vivemos em tempos de certo modo complicados para os dez filadaputa que lê livro, é certo. Com a ascensão abrutalhada e fascinante da narrativa audiovisual no último século, a literatura perdeu evidência e saiu do posto privilegiado em que sempre estivera, de forma narrativa primária. O que para muitos escritores pode parecer terrível - como de fato o é, mas não completamente - a mim parece um convite à maior liberdade, ao completo abandono à imaginação. Ninguém está olhando. Ninguém se importa. Ninguém está lendo. Que maravilha”.
Sem pressões de mercado (ou valor), a literatura passa a ser espaço privilegiado de liberdade criativa. Escreve-se o que se quer. Publicar não é tão difícil. Não se faz o filme que se quer, em hipótese alguma que não de um desvario bilionário.
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Ando pensando bastante no espaço de subversão que a palavra é, numa sociedade que reduz todos os discursos à imagem (pense na política e na música, por exemplo – não há política sem publicidade, não há música sem videoclipe).
Penso, em especial, na literatura e na religião. Porque são, me parece, espaços de individualização da fala. O livro não fala senão com você. Ou você, ou você. Mas nunca vocês três coletivamente. Como a palavra sagrada fala ao indivíduo, pois é no indivíduo que há espiritualidade.
(Bernard Shaw diz que todo livro que vale à pena foi escrito pelo Espírito)
A pessoalidade é característica comum à literatura e à religião. Ninguém pode ler por você. Ninguém pode crer por você. A leitura exige entrega. Menos que isso é superficialidade. Fé de televisão e leitura de horóscopo.
Escrito por quem gritou foi o reuben às 10h15
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de como me dobraram ao meio e atiraram fora
http://www.sevaj.dk/kharms/kharmseng.htm
Isso é tudo o que eu conheço do Daniil Kharms. Azar o meu. Lembro que quando Ricardo me passou o endereço, há 72 anos, o primeiro conto que li foi “O sonho”. Nunca saiu da minha cabeça. Não é exagero quando digo que quase todos os dias, desde então, penso no homem dobrado ao meio e jogado no lixo. No lixo não. Como lixo.
Tirei o fim de semana para reler os 24 contos disponíveis neste site. Há ali um humor impossível. Possível é lembrar de Lewis Carroll e Julio Cortazar. Só que Daniil Kharms é, digamos, menos sutil. Bem menos.
Portanto se eu deixei de sair com você, ou você, ou ainda você e você, e disse que o fiz por algum motivo que não a leitura do Kharms, eu menti.
Nada mais apropriado.
Escrito por quem gritou foi o reuben às 20h26
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